"A embriaguez ao volante hoje é socialmente aceita", alerta delegado Vanderic


||| Para delegado Manoel Vanderic, as pessoas não se comovem mais com as mortes no trânsito, embora elas superem em número qualquer outra tragédia que aconteça no Brasil

FERNANDA MORAIS E MARCOS VIEIRA

O titular da Delegacia Especializada em Investigação de Crimes de Trânsito de Anápolis, Manoel Vanderic Filho, postou no Instagram um texto que comparava a comoção pelas mortes com o rompimento da barragem em Brumadinho (MG) – intensas, justas e necessárias – com a falta de reação diante das vítimas fatais no trânsito. Em entrevista ao Anápolis360° ele confirma a preocupação com a banalização das mortes nas ruas e avenidas da cidade – só no ano passado em Anápolis foram 81 casos.

O senhor fez um desabafo no Instagram sobre o fato de 80 mortes no trânsito em Anápolis não gerarem a devida comoção. Esse tipo de crime acabou se banalizando? Com certeza. Definitivamente. A gente fala 80 mortes: é muita coisa. O ser humano de uma forma geral, as pessoas rasas, quando se fala em 80 mortes em um ano, [consideram] muito pouco. Eu ouvi isso! Quando eu fiz aquela comparação [no Instagram], disseram que quando passasse de 200 mortes em Minas Gerais, eu ficaria com vergonha da minha fala. Não tem nada a ver. Não é esse nível de comparação que eu quis fazer. Cada morte isoladamente – se fosse uma – já valeria a revolta e a reflexão. Uma pessoa que perde outra não quer saber se foi soterrada, se foi queimada, se foi assassinada ou atropelada. Perdeu. Uma morte causa o mesmo tipo de dor, independentemente da origem, de como foi. Dito isso, há teorias que mostram que morte no trânsito não gera a comoção que deveria. Basta você ver. O tanto que o ser humano é raso. Se cair um avião e morrer 50 pessoas, é notícia no mundo inteiro. Em 2018 só no Brasil morreram mais de 60 mil pessoas no trânsito. Só em Anápolis foram 81 mortes. Você viu em algum lugar uma notícia sobre isso? Não, pois já é algo socialmente aceito. Esse comportamento já é um reflexo de como se fosse algo natural. Quem sofre é só a mãe, o pai e o irmão que enterra seu ente. O resto... Está todo mundo hoje sofrendo por causa de Brumadinho, mas no final de fevereiro vai estar todo mundo pulando Carnaval, já esqueceram a tragédia. O que eu quis dizer é que a dor do outro é muito relativizada. Quero aproveitar esse momento da dor causada por essa tragédia, que sensibilizou todo mundo, para as pessoas pensarem nas outras tragédias também, que não podem ser esquecidas. Então essas mortes no trânsito acabaram se banalizando sim. É óbvio, é notório. Basta ver: se a pessoa não for reativa, ela for reflexiva, ela vai ver que realmente está banalizado.

O álcool é o grande causador das mortes? Aqui em Anápolis todas as mortes são investigadas. Não tenho número fechado, mas 40% a 50% aqui na cidade são decorrentes do álcool. Cito exemplos. Teve o Itamar, vítima. Eram uns meninos que estavam em uma festa, saíram embriagados, dirigindo em alta velocidade, atropelaram ele [o Itamar] e mataram. É comum por aqui o motociclista que está dirigindo e colide contra poste, muro ou caçamba e morre. Carro que sai da pista e pega em um ciclista. Então o álcool aqui é entre 40% e 50%. Aí eu fiz um paralelo: se no Brasil são 60 mil mortes, se considerar 20%, por baixo, o mínimo, são 12 mil pessoas morrendo no país por embriaguez ao volante. E isso só em 2018!

Como fica a família de uma vítima no trânsito? É a mesma coisa. Não tem diferença de alguém que perdeu o filho lá em Brumadinho. A dor de uma mãe que enterra um filho atropelado é a mesma dor de uma mãe que perdeu o filho soterrado. Mas e o patrimônio? Lá a perda foi maior. Ninguém quer saber de patrimônio. Na hora da morte todo mundo se esquece de casa, de carro, de meio ambiente. Ninguém quer saber. Na hora da morte de um filho, de uma mãe, você não quer saber! A gente entrega tudo, casa, carro, o que tem, para ter a pessoa de volta. Então vamos deixar patrimônio de fora. Isso é o que menos interessa quando se discute morte. O que eu vejo, é que as famílias entram em choque. Todos em pânico. O atropelamento mata não é o usuário de drogas, não é o traficante. Não são casos de pessoas que indiretamente procuraram o desfecho fatal, que entraram no mundo do crime cientes que aquilo poderia acontecer. No trânsito não. Quem morre é a vovozinha que saiu da igreja e foi atropelada. Isso aconteceu no ano passado, mãe e filha, de 90 e 70 anos. O adolescente que está voltando do trabalho e da escola. É a trabalhadora que está sentada numa lanchonete lanchando, de forma honesta, digna, às 8 horas da noite, aí vem um doido e atropela e mata ela espremida num muro. Essas são as vítimas no trânsito.

Não estão acontecendo mais blitzen aqui em Anápolis? Não estão mais acontecendo pela Delegacia de Trânsito. O Estado cancelou o pagamento de hora extra para os policiais, e só estão acontecendo em Goiânia. Houve uma movimentação política, uma interferência sim, pois os donos de bares estavam reclamando do impacto na venda de bebida alcoólica. O prefeito Roberto Naves autorizou o convênio, estava previsto para a primeira semana de janeiro, mas tem um trâmite burocrático que está travado. Estamos esperando para recomeçar, mas não acontece blitz desde o início de 2018.

Além da repressão através da fiscalização, o que deveria ser feito para mudar essa realidade de mortes? Educação. O que mais me revolta quando fazemos operações, é que as pessoas têm consciência do risco. Quando a gente prende o jovem, que geralmente é playboy, com carrão de luxo, universitário, os pais vão à delegacia pagar fiança indignados com a polícia. E o discurso é que a polícia deve prender bandido, pois o filho deles, o motorista bêbado, não é bandido. A embriaguez ao volante é socialmente aceita, pois o político bebe e dirige, o médico bebe e dirige, o pastor bebe e dirige, o padre, o universitário. Então todo mundo acha que é normal. Então quando a gente vê alguém preso pela mesma conduta que praticamos, ficamos com raiva da polícia, pois nos identificamos com o autor do crime. E é isso que tem acontecido. O que falta no meu ponto de vista são educação e vergonha na cara. É ter consciência que o carro é uma arma mais perigosa que um revólver. Pois dirigindo ele você mata uma, duas, três pessoas.

FRASES:

“Quando a gente prende o jovem, que geralmente é playboy, com carrão de luxo, universitário, os pais vão à delegacia pagar fiança indignados com a polícia. E o discurso é que a polícia deve prender bandido, pois o filho deles, o motorista bêbado, não é bandido”.

“A embriaguez ao volante é socialmente aceita. O que falta para mudar essa realidade no meu ponto de vista são educação e vergonha na cara”.

Delegado Manoel Vanderic

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