Mapeamento revela impacto sofrido por Abadiânia após prisão de João de Deus


||| Entidades do Sistema S se uniram para fazer o levantamento através de pesquisas; agora sugerem medidas para que a cidade retome economia após escândalo envolvendo Casa Dom Inácio de Loyola, até então principal motivador da prosperidade local

MARCOS VIEIRA

A crise gerada em Abadiânia a partir da prisão do médium João Teixeira de Faria, conhecido como João de Deus, foi mensurada através de pesquisas qualitativa e quantitativa, realizadas na cidade pelo Sistema S para a elaboração de um mapeamento e diagnóstico empresarial.

O estudo que foi feito a pedido da Prefeitura de Abadiânia foi apresentado na quarta-feira (3.jul), em Goiânia. Estão envolvidos no trabalho o Sistema Fieg/Sesi/Senai/IEL, Sistema Fecomércio/Sesc/Senac, Sistema Faeg/Senar, Sebrae Goiás e Universidade Salgado de Oliveira (Universo).

Como era de se imaginar, as maiores perdas das empresas formalizadas e próximas a Casa Dom Inácio de Loyola foram às do setor de hospedagem: o faturamento caiu 85% entre dezembro de 2018 e março de 2019. Mas o cenário ruim atingiu toda a cidade. O ramo do vestuário e da confecção também sofreu perdas de 85%. O setor de alimentação encolheu 53%.

No mercado informal, o artesanato reduziu o faturamento em 83%. Lanchonetes, restaurantes e cafés sofreram perdas de 67%.

O cenário de crise leva ao endividamento. Os entrevistados na pesquisa acumulam dívidas que chegam a R$ 2,9 milhões. O estudo aponta que 39% das famílias foram afetadas com os acontecimentos. Para as empresas próximas a Casa Dom Inácio esse percentual é maior: 51%.

Os empresários responderam que a principal dificuldade atualmente é a redução no número de turistas. A imagem negativa da cidade perante o público de um modo geral também incomoda os entrevistados. Apesar disso, a maioria diz que vai continuar com a empresa e esperar as coisas melhorarem: 48% ainda se mostra otimista com o próprio negócio.

Abadiânia se tornou conhecida nacional e internacionalmente por sediar a Casa Dom Inácio de Loyola, centro de atendimento espiritual que levou prosperidade à cidade devido à rede de negócios que movimentava. Com a imagem impactada pela prisão e acusações de abuso sexual do responsável pela existência do local, é preciso buscar alternativas para a retomada da economia.

Para os consultores do Sistema S, a mudança de cenário passa pela atração de empresas de maior porte para a região, através de incentivos fiscais e doação de terrenos. Outra medida é incentivar o turismo em torno do lago Corumbá IV.

Outras ações seriam criar um polo universitário, formular eventos que atraiam turistas e investir na agropecuária. “Quem vem para o trabalho espiritual, volta. Turistas estrangeiros acreditam que há um portal energético na cidade”, destaca a pesquisa.

A pesquisa quantitativa com 255 empresários e gestores da cidade foi feita entre os dias 8 e 17 de abril. Já no dia 4 de maio foi realizada uma pesquisa qualitativa com três grupos: empresas de prestação de serviço e comércio; restaurantes, lanchonetes, hotéis e pousadas; empresários e artesões.

O levantamento qualitativo confirma o que foi revelado no quantitativo. Os entrevistados relataram que Abadiânia já vivia o impacto da crise de 2016 e esse novo cenário só piorou a situação, sobretudo para negócios próximos a Casa Dom Inácio.

Os menos afetados são aqueles que dependem do fluxo da rodovia BR-060 ou que tem como principais clientes cidades da região, como Anápolis. Uma coisa é certa: muitos esperam o efeito em cadeia, pois o desemprego aumentou.

Empresários relatam um impacto também psicológico e informam que algumas medidas foram tomadas, mas ainda sem grande sucesso, como investimento em divulgação. Empresários estão migrando para outras cidades e aumentaram as vendas no “fiado”.

Sobre expectativas para o futuro, empresários relatam que o município não oferece oportunidades para crescimento, falta diálogo entre empresários e prefeitura e qualificação para os gestores públicos. Prestadores de serviço pretendem persistir até o fim do ano, enquanto comerciantes falam em tolerância de três meses.

De acordo com o prefeito de Abadiânia, José Diniz, a cidade enfrenta várias dificuldades atualmente, mas a principal delas é o desemprego, que cresceu nos últimos meses.

“Temos que criar novos postos de trabalho para que a população não fique desassistida. Por isso, assim que soubemos do caso, procuramos o Sebrae para nos orientar e graças à instituição tivemos as portas abertas para o Sistema S. Com esse diagnóstico em mãos percebemos que a nossa cidade tem uma capacidade muito grande de se reestabelecer economicamente despertando seu potencial”, destaca.

Para o diretor superintendente do Sebrae, Derly Fialho, o Sebrae acredita que os fatos que ocorreram na cidade podem ser revertidos a partir do apoio e investimento na capacidade empreendedora dos abadienses. “O Sebrae tem uma crença que os indivíduos na sua atitude empreendedora é que move o mundo, com sua criatividade e inovação”.

Segundo Fialho, são dois caminhos a percorrer: o primeiro é investir, melhorar a produtividade do que já existe na cidade, proporcionando a capacitação das pessoas com o treinamento e educação ao empreendedorismo; a segunda é explorar o potencial da região, pensando em novos negócios que vão atrair tanto o turismo quanto investimentos. (Com informações da Agência Sebrae de Notícias)

Cidade de Abadiânia vivia da prosperidade da Casa Dom Inácio e agora precisa buscar novas alternativas para reerguer a economia local (Divulgação)

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