Fundamental para Anápolis, rádio AM sai do ar e emissoras buscam fazer história também em FM


||| O radiojornalismo mais forte de Goiás migra definitivamente da AM para a FM com o desligamento dos transmissores dos 590 kHz da Rádio Manchester, seguindo o que já fez a São Francisco e a Imprensa

MARCOS VIEIRA

O rádio AM de Anápolis chegará ao fim nesta semana, quando os 590 kHz da Rádio Manchester saírem do ar com o desligamento dos equipamentos desse tipo de frequência, concluindo a migração para a FM, no caso 105,7, da agora Manchester News.

O mesmo já havia acontecido com a Rádio São Francisco (97,7 FM) e com a Rádio Imprensa (104,9 FM), em 2017 e 2018, respectivamente.

Durante vários anos, o dial dos rádios anapolinos se revezaram no 590, 670 e 1030 da Amplitude Modulada (AM), em busca principalmente de jornalismo. As reportagens e principalmente a opinião forte dos profissionais do rádio na cidade transformaram as emissoras locais em verdadeiras potências em Goiás.

O programa ‘Bate e Rebate’ da Rádio São Francisco foi uma prova disso. No ar antigamente de segunda a sexta-feira das 6h às 11h, suas críticas repercutiam imediatamente e não foram raras as vezes que um comentário chegava rapidamente ao Palácio das Esmeraldas – em casos assim, o próprio governador mandava sua equipe entrar em contato para dar uma resposta aos ouvintes.

Mais recentemente, o programa Atualidades Manchester, que segue firme na faixa das 6h às 11h, tem sido porta-voz de demandas importantes para a sociedade, cobrando diretamente políticos e outros agentes públicos. Diariamente as pessoas telefonam para a rádio para denunciar ou pedir algo, aguardando que a emissora interpele, também ao vivo, aquele que possa apresentar a solução.

Entre aquelas que possuem um departamento de jornalismo ativo, a Imprensa vem se tornando conhecida por manter um programa na faixa das 18h – O X da Questão – que não só faz o resumo do dia, mas também oferece espaço para opiniões de especialistas, algo que agrada ao ouvinte que ouve a rádio no carro, na volta para casa.

As rádios AM se consolidaram em Anápolis graças a um jornalismo de viés comunitário, com ampla participação dos ouvintes, com espaço para sugestões, pedidos e reclamações. A simplicidade de uma transmissão via telefone fez com que repórteres se deslocassem rapidamente por diferentes cantos da cidade, dando a agilidade tão valorizada por quem consome notícia.

Das três emissoras que disputavam em uma época mais recente a liderança em programas jornalísticos, a Manchester deve ser a única que ao migrar para a FM tem o objetivo de não alterar de maneira drástica a sua programação. A emissora preservará o jornalismo, inclusive adotando o News em seu nome, seguindo uma tendência já confirmada nos grandes centros, com a CBN, Band News, Jovem Pan e outras.

Embora o que deva acontecer de fato é a emissora criar seu próprio padrão, como sempre foi feito no rádio anapolino, cujos profissionais se espalharam por importantes emissoras de todo o país e ditaram tendência, dando como exemplo o trabalho realizado em solo anapolino.

O rádio AM também viveu de programas musicais populares e do esporte, com as transmissões de jogos da Anapolina e Anápolis, mas principalmente com o debate feito em mesas redondas diárias. Um dos grandes nomes na área, Miguel Squeff, falecido no ano passado, construiu sua carreira na cidade.

A mudança de AM para FM atende a um pedido feito pela Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão (Abert), visando o fortalecimento comercial dessas emissoras, que atualmente perdem ouvintes devido à qualidade do seu som. Com a FM, essas emissoras vão se conectar com mais facilidade nos aparelhos de celular e nos rádios de carros mais novos, o que deve representar um impulso na venda de comerciais.

Restará então a imensa contribuição do rádio AM para Anápolis, em diversos segmentos. Até hoje, todos os políticos da cidade que conseguiram projeção souberam dar a devida importância às ondas médias. Empresários, entidades e a população não foram apenas ouvintes, mas ditaram os rumos da programação com interações frequentes. Com a ida dos profissionais que fizeram história na AM para a FM, começa então a fase de ouro dessa frequência em Anápolis.

OS PROFISSIONAIS E AS MUDANÇAS

O Anápolis 360° perguntou a profissionais da cidade o que o rádio AM representou para Anápolis e para suas próprias carreiras, além de questionar o papel da FM a partir de agora. Leia os depoimentos.

Jairo Mendes Passei minha vida toda dentro do rádio AM, desde os meus 15 anos de idade. Tenho paixão pelo AM, pelo o que ele representou e representa para Anápolis. Temos aqui o mérito de acreditar no rádio AM. Investimos no jornalismo. Fizemos do rádio um companheiro das pessoas, algo comunitário, aquele veículo em que as pessoas acreditam, sobretudo as mais simples, que não tem oportunidade de serem ouvidas, de serem levadas a sério, mas que veem no rádio essa oportunidade de expressarem uma insatisfação, de conseguirem ajuda. Isso fez do rádio em Anápolis um veículo importante. Tanto que o rádio AM morreu no Brasil inteiro a partir da virada do século e continua sendo representativo na cidade. Vejo que grandes emissoras de Goiânia não têm a expressão e interação social que nossas rádios possuem. Porque aqui acreditamos no rádio AM e demos vida a ele. A partir do instante que um programa é colocado no ar, há a interação com a sociedade, a porta aberta, aqui se vive o dia a dia da sociedade. Em determinados momentos a representação parlamentar foi frágil em Anápolis e por sua expressão, o rádio fez esse papel de ser o porta-voz da sociedade junto às autoridades. As pressões feitas pelo rádio foram de muito valia para os interesses de Anápolis. E as autoridades locais e regionais reconhecem isso. Veja que governadores, deputados e senadores, em suas vindas a Anápolis, dedicam parte do tempo a dar entrevistas às rádios. Nas campanhas eleitorais, as rádios locais são programadas pelos assessores para serem visitadas, porque sabem que essas entrevistas chegam ao público, que as emissoras locais têm essa representação. Vejo o fim do rádio AM como o fim de qualquer ciclo na vida. A tecnologia tem empurrado algumas atividades para o ostracismo, não há como evitar isso. A tecnologia fez do rádio AM um rádio de qualidade tecnológica secundária, ou seja, não tem bons transmissores, é difícil adquirir um aparelho que sintonize a frequência, muitos veículos saem de fábrica com apenas FM. A qualidade da transmissão não é boa, pois sofre interferência de dados digitais, de computadores. Nos prédios não se consegue sintonizar uma emissora AM. Ficou tecnologicamente ruim, obsoleto. Em razão disso que ele perdeu importância. Já a FM tem som melhor, maior qualidade de transmissão. Vejo essa mudança como mais um passo da humanidade rumo à tecnologia. Vamos ter que fazer algumas adaptações na programação. Mas temos que nos adaptar e pouco a pouco as pessoas vão ver que a programação é a mesma, a inserção social é a mesma. Sigo com essa preocupação, de estar inserido na vida da sociedade. Se a gente fizer isso no FM, ele terá o mesmo papel que o AM teve em Anápolis.

Nilton Pereira Faço rádio desde 1971. Entrei na extinta Rádio Carajá. Já atuei no rádio esportivo; rádio policial; rádio político, tudo. Vivi por mais de quatro décadas nos sistemas de Ondas Médias, Onda Curtas e Amplitude Modulada (AM). Agora, migramos para o sistema de Frequência Modulada (FM). No meu entendimento, as mudanças são, basicamente, técnicas. Troca de equipamentos, ajustes na programação, coisas que vêm com a evolução, naturalmente, sistemáticas. Mas, fazer rádio continua uma atividade quase que imutável. A tecnologia ajuda, a formação acadêmica é extremamente importante, mas, a vocação e o talento falam mais alto. O rádio AM, mais romântico; mais próximo do cidadão, mais direto e mais lúdico, abre espaço para a qualidade advinda da tecnologia de ponta, para o computador, para os sofisticados aparelhos. Claro que a qualidade do som fica melhor, a sintonia fica mais fácil, tudo conspira favoravelmente para o aprimoramento desse insubstituível instrumento, esta fantástica ferramenta da humanidade que é o rádio. Anápolis teve as primeiras experiências de rádio nos anos 1940, com Abelardo Velasco e João Simonetti, seguidos por muitos outros amantes do rádio. O sistema AM foi, ao longo de várias décadas, o principal veículo de comunicação de toda a região. Vieram as rádios FM e ocuparam seus espaços. Agora, o sistema FM é dono absoluto da audiência. É a evolução que chega, é a tecnologia pedindo passagem, é a inevitável chegada do futuro. Logo virão outros projetos, como o rádio web, que já é uma realidade.

Orisvaldo Pires A migração, iniciada em 2009 no país, é uma etapa irreversível, que consolida o fator portabilidade e insere o rádio contemporâneo no ambiente digital. No processo natural de evolução tecnológica, o principal interesse da migração da Amplitude Modulada (AM) para a Frequência Modulada (FM) é ampliar a qualidade de som, extrair ruídos, para uma interação mais clara, que atinja o real objetivo de transmitir a informação. A transformação social, cultural e de comunicação experimentada pelo Brasil e pelo mundo, por meio do rádio, ressoou de forma completa em Anápolis. Foi o rádio AM, desde os primórdios, em 1942, com Amplificadora Cultural Anápolis, que produziu grandes profissionais para Goiás e para o Brasil, e selou a amizade entre os programas matutinos e o trabalhador rural – assim como com as donas de casa, e serviu de trincheira àqueles que lutaram contra a ditadura militar. Foi o rádio AM que imortalizou programas como ‘Você, a noite e a música’, ‘As preferidas’, ‘Ronda Policial’, ‘Um dia após outro’, ‘Calourinhos’, ‘O mundo no ar’, ‘Discoteca do ouvinte’, ‘A hora da verdade’, ‘O povo falou, tá falado’, ‘Fatonotícia’, ‘Rancho do Jeremias’, entre outros. O rádio AM animou torcedores do Anápolis, da Anapolina e do Ipiranga. O rádio esportivo anapolino ocupou espaço entre os mais fortes e profissionais do país. O rádio AM moldou inteiramente a construção de minha personalidade profissional. Ao todo são 32 anos de relação íntima como esse sistema de comunicação. Neste contexto, estabeleci uma relação de paixão com o som AM. É difícil descrever os porquês dessa paixão, da mesma forma que compreendo a necessidade de evoluir, da inevitabilidade de abrir a mente para as coisas novas. É preciso que acompanhemos e nos adaptemos a ela. Acredito que, nessa nova realidade do rádio, quem teve experiência com AM tem um bônus para se adaptar em relação a outros. Por fim, com base no que vimos até agora depois da opção de centenas ou talvez milhares de emissoras do país, é possível elencar fatores positivos e negativos da migração. O rádio FM oferece melhor qualidade de áudio, com redução de ruídos, acesso facilitado por smartphones e outros meios de comunicação digitais. Por outro lado reduz espaços para o jornalismo/utilidade pública na programação e, em parte significativa dos casos, provoca cortes de vagas de trabalho. O desafio é encontrar o equilíbrio histórico e ético no processo de migração, para a evolução sustentável entre os componentes tecnológico e humano. Acredito que é necessário manter o foco não apenas na qualidade do som que será transmitido, mas no conteúdo da comunicação que será produzida.

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