Artistas de Anápolis lamentam tentativa de marginalização da cultura no Brasil


||| Audiência pública na Câmara Municipal foi para discutir uso dos espaços públicos, mas acabou indo além disso e serviu de desabafo para o atual momento vivido pelo setor no Brasil

MARCOS VIEIRA

Um audiência pública realizada na quinta-feira (24.out), na Câmara Municipal, que debateu o uso dos espaços públicos para manifestações artísticas, serviu também para os profissionais que fazer parte do setor em Anápolis demonstrarem preocupação em relação ao cenário em que vive o Brasil atualmente.

A demanda que foi objeto do encontro, de que não se pode burocratizar uma simples roda de música, apresentação circense ou teatro de bonecos em um parque, exigindo autorizações em órgãos públicos, foi bem compreendida pelas autoridades.

Tanto é que uma reunião para definir o uso dos espaços foi sugerida pelo diretor do Observatório de Segurança, Carlos Antonio Costa, e aceita por todos, com o aval dos vereadores propositores do evento, Lélio Alvarenga (PSC) e Professora Geli (PT).

Mas o que fica do encontro é o desabafo dos artistas de Anápolis em relação a um governo federal que extinguiu o Ministério da Cultura, demonizou políticas de incentivo ao setor e vem veladamente censurando manifestações artísticas.

Uma frase dita em certo momento pelo presidente do Conselho Municipal de Cultura (CMC), o produtor Luiz Sérgio Fragelli, com a anuência de todos, resume o pensamento vigente: “estamos sendo marginalizados”.

Antes disso, o desabafo do rapper Raga Luke foi comovente. Ele reconheceu o apoio do poder público municipal às ações voltadas pelo Hip Hop e desenvolvidas pela Associação Cultural Motriz, mas reclamou do preconceito em relação à arte da periferia, sobretudo pelas forças de segurança.

“Com autorização a gente se torna parceiro. Sem autorização nos tornamos resistência”, disse Raga.

Em suas falas, os artistas acabaram reafirmando o que deveria ser de conhecimento de qualquer sociedade minimamente avançada: que a cultura tem papel fundamental para a humanidade.

A contadora de histórias e mestre bonequeira Dalci Brincante explicou que seu trabalho tem um fundo educacional. Aline Rodrigues de Sousa, a Nina, fotógrafa e artista de rua, frisou que paga impostos e pertence a um grupo que também fomenta a economia.

Para Beto Faleiros, a censura voltou ao Brasil “de forma clara e objetiva”. “Precisamos de um projeto de proteção do trabalhador da cultura”, afirmou. Segundo ele, quando se prende um artista, a pátria deixa de ser livre e democrática.

A professora Elza Gabriela Godinho, autora de um mapeamento da cultura em Anápolis, defendeu um tripé para o setor: conhecer, fazer e fluir. Ela lembrou a importância de todas as manifestações artísticas e disse que não há briga entre elas. “Uma orquestra não é mais importante que uma arte de rua”, ensinou.

O produtor cultural e músico Paulo Renato Cavalcante, filho da professora de dança Elza Cavalcante, também presente na audiência, lamentou o preconceito com o artista no Brasil atual, sobretudo porque se trata de alguém que produz algo que muita gente não consegue enxergar o valor propriamente dito, mas cuja ausência seria impensável.

Zeck Mutamba, artista circense e músico, fez um relato completo da angústia de quem vive de arte atualmente. “No ano passado chegamos ao ponto de um aluno da Escola de Circo ser obrigado a retirar um tecido acrobático que havia amarrado em uma árvore de um parque”, narrou.

Zeck lamentou que Anápolis viva essa situação em relação aos espaços públicos, pois graças a pioneiros como Washington Ribeiro, a cidade hoje tem tradição na arte circense, com companhias atuantes e local de passagem de artistas do mundo todo.

De positivo fica a convergência de todos para a resolução do problema. Que os espaços públicos sejam vitrines do tamanho da importância que o anapolino sempre deu à cultura.

Audiência pública foi realizada na Câmara Municipal de Anápolis na quinta-feira, 24.out (Ismael Vieira/CMA)

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