Médica da Santa Casa de Anápolis relata drama de grávidas com Covid-19

É cada vez maior o número de mulheres gestantes que estão procurando atendimento na Santa Casa de Misericórdia de Anápolis



DA REDAÇÃO


A médica ginecologista e obstetra Claudinéia Cavalcante faz um alerta: a Santa Casa de Misericórdia de Anápolis tem recebido cada vez mais um número maior de gestantes com Covid-19, cuja evolução da doença as colocam na UTI, intubadas, obrigando que sejam realizados partos prematuros. Leia a seguir o relato da profissional à Rádio Manchester, na última quarta-feira (24.mar).


A senhora confirma muitas mulheres grávidas testando positivo para Covid-19?

Infelizmente nessa segunda onda estamos com um número expressivo de gestantes internadas no nosso isolamento da Santa Casa.


O que representa a doença para uma gestante? Quais são as complicações para a criança?

Já há alterações no sistema imunológico, próprias da gestão, portanto isso dificulta um pouco. Na primeira onda nós não observamos isso, foi muito tranquilo. Mas nessa segunda onda elas [gestantes] estão chegando cada vez mais graves e as que não chegam muito grave se agravam muito rápido. Isso pode ter a ver com o sistema imunológico da gestante – como a maioria delas tem comprometimento pulmonar, a gestante já tem o abdome globoso, que dificulta a respiração, então isso também dificulta o tratamento para elas. A gente gostaria que elas ficassem em pronação, mas não conseguem e isso dificulta o tratamento.


Já teve caso registrado de morte?

Infelizmente sim, na semana passada tivemos nosso primeiro óbito, uma gestante de 22 semanas. Temos duas intubadas, essas retiramos os bebês prematuramente, um de 33 e outro de 31 semanas. As duas mulheres estão graves e nossa dificuldade agora é onde colocar os bebês, porque eles nascem e são considerados positivos para Covid-19, até que se prove o contrário, então eles não podem ficar com os outros. A gente então precisa providenciar um isolamento para que esses bebês, prematuros extremos também, tenham o atendimento da UTI neonatal, mas fiquem em isolamento. E essa é nossa grande dificuldade.


E o que está sendo feito para resolver essa questão?

Na UTI pediátrica tem um pequeno espaço de isolamento, mas como o número está crescendo, daqui a pouco não teremos o que fazer. Estamos com essa dificuldade, o pessoal está vendo se consegue outro espaço na Santa Casa, para que a gente possa fazer o isolamento de bebês prematuros de mães com Covid-19.


São gestantes que chegam de diferentes cidades?

Sim, pois a Santa Casa é referência para o centro-norte de Goiás, então ela recebe muitas gestantes com complicações de alto risco. Agora temos 11 pacientes internadas com Covid e nunca tivemos tantas assim. E a gente observa um número cada vez maior de gestantes procurando o pronto-atendimento com sintomas da doença. O que a gente observa é que o agravamento não acontece só com pacientes que tenham comorbidade. As mulheres intubadas não tem comorbidade, só estavam gestantes.


Por que essas grávidas pioram o estado de saúde tão rápido?

Eu penso que é a agressividade dessa segunda cepa. A gente imagina que seja isso, porque não são pacientes com comorbidade, são apenas gestantes. E é isso que nos preocupa, uma agressividade maior do vírus.


A senhora acredita que é importante que se faça uma campanha específica para as gestantes?

Eu acredito que sim. A gente precisa mobilizar toda a nossa comunidade. Está muito difícil para todo mundo, mas nesse momento as grávidas precisam de distanciamento, precisam realmente de usar máscara. Elas já têm certa falta de ar, já tem uma dispneia e isso dificulta o uso da máscara, mas nesse momento é importante, como também o distanciamento social. Tudo que uma grávida quer é um abraço, um beijo, a gente fica tão carente quando está grávida, eu já passei por isso quatro vezes, sei como é, mas não é momento de abraços, de beijos e de visitas. Evitar realmente aglomerações, mesmo as familiares, pois sabemos que a transmissão é no grupo familiar mesmo. Então manter o ambiente sempre muito bem ventilado e higienizado. A gente tem observado certa irresponsabilidade, as pessoas estão com sintomas, mas não acreditam na doença. E dessa forma transmite e, talvez, para as pessoas mais queridas, os próprios familiares. É preciso higienizar as mãos e lembrando que o vírus entra através de mucosas, portanto é preciso evitar o contato. Evitar contato com boca, nariz, olho e genitália, porque também é mucosa e é porta de entrada para o vírus. Não pode deixar de fazer o pré-natal, pois muitas com medo da pandemia não estão procurando atendimento. Isso não pode acontecer. É preciso se alimentar, tomar suplementação de vitaminas, pois quem vai brigar por nós é o nosso sistema imunológico, ele precisa estar armado.


E a carga de trabalho de vocês, profissionais da saúde, que estão atendendo gestantes na Santa Casa?

Posso dizer que está complicado, todo mundo exausto, todo mundo cansado, e ansiosos com essa evolução [da doença] que parece que fazemos tudo e mesmo assim escorrega pelos dedos. É uma sensação de impotência, não sei dizer o que é, cansaço extremo, pois estamos vivendo no limite. Chega em casa, tenta dormir, mas é complicado, porque é muito estresse durante o dia. É uma sensação de que você não tem controle de absolutamente nada. Então estou vivendo um dia de cada vez, colocando tudo nas mãos de Deus e Ele que vai tomar conta de todos nós.