Morre Cleiber Júnior, um dos mais autênticos narradores esportivos do rádio

O profissional estava internado com Covid-19; leia alguns depoimentos dos seus amigos de rádio, verdadeiros companheiros de vida



MARCOS VIEIRA

(Com reportagem de Fernanda Morais)


Cleiber Júnior, o “locutor sensação”, aquele que sempre “moeu a madeira do rádio” e que “esbagaçava” para a alegria de todas as torcidas de futebol, morreu neste domingo (21.fev) vítima da Covid-19.


Natural de Goiânia, o profissional tinha 42 anos de idade. Vivia atualmente em Jaraguá, onde comandava a Rádio Cidade. Ele foi internado inicialmente no Hospital Estadual Sandino de Amorim. Os áudios que gravou para os amigos mostravam o quanto a doença o havia atingido: a voz marcante estava baixa e entrecortada pela tosse característica da Covid-19.


No dia 12 de fevereiro morreu Divino Coco, operador e locutor da Rádio Cidade, também devido ao coronavírus, um baque para todos. Recentemente Cleiber teve seu estado agravado e foi transferido para uma UTI em Goiânia. Não resistiu e agora nos deixa, justo em um domingo de futebol.


O Anápolis 360º conta um pouco da história de Cleiber Júnior através dos seus amigos:


Ronair Mendes (radialista e locutor esportivo)

Cleiber trabalhava com a gente na Rádio Bandeirantes. Nessa Série C ele viajou para narrar quase todos os jogos do Vila Nova. Trabalhei com ele também em 2004, na Rádio Imprensa, em Anápolis. Sempre fomos muito amigos. Inclusive ele tinha um jingle que rodava antes das transmissões, que foi eu que compus. Era um cara engraçado, irreverente, uma amizade muito boa, sempre muito divertido. O Cleiber deixa um legado muito positivo. A nossa comunicação esportiva fica mais pobre, o futebol goiano fica mais pobre com a partida dele. Eu falo isso sem qualquer hipocrisia: vai ficar uma lacuna muito difícil de ser preenchida porque ele tinha uma marca e vai ser difícil de assimilar esse golpe. Estamos todos muito tristes. Tenho fé em Deus que ele está na graça do Senhor. Fiz uma homenagem a ele, narrando um gol no estilo dele, e torci muito para que ele se recuperasse e ouvisse. A gente iria rir muito.


Orisvaldo Pires (jornalista)

Em quase 20 anos de convivência com o Cleiber posso afirmar que ele era diferenciado. Um profissional talentoso, fenomenal. Com a mesma intensidade que era às vezes divertidamente custoso (risos), era também extraordinário. Amava a mãe, o filho, os amigos e a narração esportiva. A voz de narrador de rodeio de início despertou curiosidades. Mas, aos poucos, encaixou estilo único no rádio esportivo. Um parceiro fiel, companheiro. Sabia transformar um jogo chato em uma grande emoção. Poucos conseguem isso. Um exemplo para nós de que com humildade, profissionalismo e trabalho, podemos realçar nosso talento e sermos grandes naquilo que fazemos. Ele realmente esbagaçava e moía a madeira no rádio. Já faz muita falta pra gente.


Lucivan Machado (radialista)

Logo no domingo, que é dia de futebol, perdemos o nosso Cleiber Júnior. O rádio esportivo de Goiás está de luto. Vamos tentar, a partir de agora, lembrar das coisas boas que vivemos juntos. Quantos momentos inesquecíveis viajando para cobrir jogos da Anapolina e Anápolis, momentos de confraternização, tomando nossa cervejinha, descontraído. Tenho certeza que ele está em um bom lugar. Vai com Deus companheiro, vai esmagaçar no céu.


Jânio Silva (ex-jogador e comentarista esportivo)

Eu que ajudei o Cleiber a criar o “esbagaçou”. Eu trabalha na equipe do Willian Ghannan, na Rádio São Francisco, e o Willian mandou ele lá para fazer um teste. Estávamos no estúdio, eu, ele e o Chicão. O Cleiber arrumando um monte de coisa, “esbagaça” para cá, “esbagaça” para lá. Aí ele vai narrando o gol no estúdio, e diz “o fulano de tal esbagaçou”. Eu disse “repete isso aí”. Ficou diferente. E a partir daí trabalhamos um tempão juntos. Sempre que a gente tinha que viajar para um jogo, chegava ao local da saída e o Cleiber sempre atrasado (risos). Aí a gente pegava ele na Panificadora Bom Jesus, tomando café, vindo da farra. Cleiber era um garoto, veio de Caldas Novas com uma maneira diferente de narrar. Um cara de coração enorme, que deu trabalho para entrar na linha (risos). Uma narração com estilo de rodeio, coisas diferentes, chamou atenção de todos. Ele perdeu a irmã para o câncer. A mãe e ele batalharam muito. Ele estava até bem, momento muito bom da carreira, trabalhando muito. O tanto que a gente se gostava, ele morou em um apartamento nosso. Últimas vezes que vi ele me agradeceu muito pelo apoio na carreira, e disse que eu fui um paizão para ele. Isso foi muito legal. Me emociono muito, pouca gente sabe disso. Infelizmente não teve jeito, o perdemos para essa doença.


Mauro Lopes (ex-jogador e comentarista esportivo)

Realmente é muito triste o que aconteceu com o Cleiber Júnior. Trabalhei com ele muitos anos nas rádios São Francisco, Manchester, em outras emissoras também. Um companheiro em tanto, inclusive ele me chamava de “companheiro”. Fizemos muitas viagens quando a Anapolina disputava a Série B. Um cara sensacional, um profissional de primeira, infelizmente a Covid acabou o levando. Lamentável, que Deus possa confortar a família dele, dê um bom lugar a ele. Como companheiro um cara maravilhoso e como profissional um dos melhores que conheci.


Márcio Gomes (repórter)

Tive a oportunidade de conhecer o Cleiber bem no início da carreira, nós dois bem jovens. Ele veio de Caldas Novas para Anápolis tentar a sorte. Nós dois tivemos uma oportunidade na extinta rádio Carajá, em 1994. A equipe era “Os Donos da Bola”, coordenada pelo Nilton César. Quem dirigia a rádio era o Luiz Carlos Cecílio. Seguimos caminhos diferentes. Eu fui trabalhar com o Romes Xavier na Rádio Imprensa, ele foi para Goiânia e depois voltou para Anápolis, trabalhamos como Willian Ghannan nos “Craques da Informação”, viajamos pelo Brasil cobrindo jogos da Anapolina. Depois trabalhamos juntos com o Carlos Antônio Nogueira, onde fizemos Série B do Brasileiro, Série A, entre outros. O Cleiber é meu amigo há muito tempo. Tem uma passagem interessante: a gente viajou para trabalhar no Nordeste e ele não levou tênis, eu que tive que emprestar. Era para devolver no final da tarde. Até outro dia eu cobrava! Fizemos três campeonatos da Série B pela Anapolina e uns oito da Série A pelo Goiás. Éramos de rádios diferentes, mas viajamos juntos e ele fazia questão: o quarto duplo era para mim e ele para jogarmos conversa fora à noite. Era meu irmão. Quando eu perdi meu irmão de criação, o primeiro a bater na porta foi o Cleiber Júnior. Era um cara que se fosse chamasse para cair no buraco, ele estava junto. A gente tinha umas brigas, mas sempre voltava rápido. Um cara sensacional, um menino que cresceu.


Tony Marizu (repórter)

Falar do Cleiber Júnior nesse momento é complicado, estou muito triste, são 17 anos de estrada juntos. Muitas viagens, hotéis, transmissões. Quando eu comecei o Cleiber me ajudou muito. Ele frequentava minha casa, a gente conversava muito fora da rádio, ele tinha um respeito muito grande por mim. Ele me chamava de “seu Tony”. Em toda convivência longa sempre acontece algum entrevero, mas comigo e com o Cleiber isso nunca aconteceu, graças a Deus. Ficávamos vários dias juntos, trabalhando. Como profissional, uma carreira intocável, tanto é que trabalhou em diversas emissoras. Uma pessoa simples, onde passava deixa amigos. Em 2019, recentemente, ele vinha narrar jogos em caminhão de som aqui em Anápolis. Ele me chamava, eu dava uma palhinha, depois a gente almoçava juntos, para bater papo. Muito simples mesmo. Perdemos muito. O rádio perde muito. As torcidas perdem. A gente fica muito triste, esse vírus maldito tira pessoas importantes de todos nós. Perdi um amigo, um colega de trabalho. O que nos resta agora é seguir tocando a vida.


Wellington Marques (repórter e narrador esportivo)

Eu já disse: hoje eu sou narrador de futebol por causa do Cleiber. Lá no início dos anos 2000 eu estava em Anápolis e via ele na equipe do Willian Ghannan. Achei muito diferente o jeito dele narrar futebol. Aí me apaixonei por rádio esportivo e dali comecei a narrar. Trabalhei com ele por muito tempo. Ele veio para Jaraguá há 10 anos, eu também, e nesses últimos dois anos eu estava trabalhando para ele na Rádio Cidade, fazendo jornalismo, praticando a solidariedade. É um cara que tem um peso muito grande para todos, sobretudo na minha trajetória. Se eu faço futebol hoje é por ele, pois ele foi meu espelho para seguir essa profissão.


Leo Mendes (narrador esportivo)

Com grande pesar que falo da passagem do Cleiber Júnior. Eu tive o prazer de trabalhar com ele na Rádio Imprensa e na Rádio Manchester e por pouco iríamos trabalhar em um canal de televisão na cidade de Anápolis. Não chegamos a trabalhar, mas ele deixa para gente aquela vontade de ouvir rádio. Criou slogans, fez muitas amizades. Viajei muito com ele – as emissoras viajavam todas juntas para cobrir os times. O Cleiber deixa sua marca em todos, não só ouvintes, amigos e companheiros. Fora do rádio tive o privilégio de estar com ele em outros trabalhos também. O Cleiber deixa a sua marca, que Deus o tenha em seus braços.


Leandro Ribeiro (presidente da Câmara de Anápolis e ex-presidente da Anapolina)

Muito triste isso tudo. A narração do Cleiber Júnior trazia emoção para os jogos da Anapolina. A gente ia para o estádio imaginando que ele narraria o gol com o jargão “esbagaçou”. Muito triste isso que aconteceu. Que Deus conforte a família e os amigos.


Governador manifesta pesar pela morte de radialista


Leia a seguir a nota publicada pelo governador Ronaldo Caiado (DEM):


Foi com imenso pesar que eu e minha esposa, Gracinha Caiado, recebemos a notícia do falecimento do radialista e narrador esportivo Cleiber Júnior, neste domingo (21/02), vítima de complicações da Covid-19.


Natural de Goiânia, Cleiber tinha 42 anos e fez sucesso na crônica esportiva do nosso Estado com seu jeito leve e irreverente. Trabalhou em várias rádios do interior, como em Caldas Novas, Jaraguá e Anápolis. Na capital, passou pela nossa Rádio Brasil Central e integrava, desde 2019, a equipe da Rádio Bandeirantes de Goiânia.


Manifesto minhas condolências à família e aos amigos de Cleiber. Mais uma vez alertamos a população sobre a gravidade dessa segunda onda do novo coronavírus. Não se descuidem, sigam atentamente a todos os protocolos sanitários, respeitem o distanciamento social, usem máscaras e álcool em gel 70%. Precisamos de união e consciência coletiva neste momento delicado por que passa toda a humanidade.


Reitero minha solidariedade a todos que hoje sofrem com essa grande perda. Que Deus, em sua infinita bondade, possa confortar o coração de cada um de vocês.


Acompanhe duas narrações marcantes de Cleiber Júnior, em jogos da Anapolina e Anápolis: